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Nas estepes congeladas do Vale do Vento Gélido

O vento uivava inclemente, de maneira fantasmagórica, cortando a pele frágil e pálida da jovem que cambaleava sem rumo no vale nevado. Os lábios rachados, a fina camada de gelo em suas sobrancelhas, o tremor incontrolável de seu esguio corpo e as pegadas deixadas para trás demonstravam o tempo que ela seguia, perdida em seus pensamentos. A dor causada por todas as ofensas recebidas era ainda maior do que àquela decorrente do frio, dos golpes e da fome, que por si só lhe causariam exaustão.

Pária. Amaldiçoada. Vadia. Exilada. Os membros de sua tribo eram praticamente unânimes em concordar com o julgamento do velho xamã, que a considerou culpada pela morte de seu filho, que recentemente havia sido apontado para ser o próximo chefe da Tribo do Alce. Ele, que havia sido o único a ser gentil com ela, enquanto todos a tratavam com desdém, preconceito e injúrias, praguejando e cuspindo por onde ela passava, fazendo sinais para afastar os maus espíritos que, segundo eles, seguiam-na por onde quer que ela fosse.

Era de conhecimento comum que ela provavelmente tivesse habilidades ou poderes especiais, mas muitos acreditavam que isso era na verdade obra de entidades sombrias, ou ainda que ela havia feito pactos com seres malignos vindos das profundezas dos mundos inferiores. Mas o jovem sempre buscava defende-la de tais sandices de um povo ignorante. Irônico, o destino lhe reservou uma morte indigna de um guerreiro de sua linhagem, quando ele havia dito para ela que a defenderia e seria seu marido, dando-lhe um primeiro e único beijo, sentença fatal que o congelou. Tudo fruto dos ciúmes de alguém que ela em breve iria rever.

Por conta do seu “crime” hediondo e por ter, nas palavras do xamã, roubado a alma de seu filho, Hedrun recebeu como pena capital seguir o Caminho da Morte Branca, sendo condenada a seguir no vale em pleno inverno, privada de trajes de peles, roupas de frio, alimentos e de qualquer espécie ajuda. Tudo isso após ser espancada e apedrejada pelos seus antigos companheiros da tribo, que orgulhosos diziam uns aos outros estarem fazendo justiça, imaginando que ela não sobreviveria mais do que duas noites no ermo glacial.

Desafiando todas as leis da natureza e expectativa dos bárbaros da Tribo do Alce, Hedrun ainda seguia viva já na sétima noite fria, derramando lágrimas que congelavam em seu rosto e tremendo tanto que mal conseguia caminhar, seguindo pelo Caminho da Morte Branca, próximo à região conhecida como Vale do Vento Gélido. Ela alimentava-se dos poucos restos e carniças que predadores maiores deixavam no caminho, e comia gelo para saciar a sua sede.

Hedrun suplicou para Tempus, a divindade da guerra do povo do norte, as razões para reservar a ela este destino tão cruel, mas a divindade não lhe deu resposta alguma. Ela também orou para o espírito do grande Alce, patrono de sua tribo, que também silenciou. Sem esperança alguma e no meio de uma severa nevasca, Hedrun gritou aos céus, questionando o próprio firmamento as razões para tamanho sofrimento em sua vida.

“Porque você é especial” foi a resposta dada por uma voz sussurrante, no meio da ventania. “Porque você será grandiosa e bela de uma maneira que eles jamais poderão compreender. E porque você será poderosa, e eles irão temer este poder”.

Neste instante, Hedrun sentiu uma energia percorrer todo o seu corpo, que caiu em convulsão na neve. Súbito, tudo parou. A tempestade, o vento, a neve… E seu coração, que também congelou para sempre. Inerte na neve, a última visão de Hedrun foi a de uma donzela, que lhe estendeu sua mão para que ela se levantasse. Ela lembrou-se daquele semblante, que inexplicavelmente inundou a sua memória ao perceber que aquela mesma mulher havia aparecido para ela em seu primeiro dia de vida. Hedrun então percebeu, que desde o seu nascimento ela havia sido predestinada a tornar-se a Escolhida de Auril, a impiedosa deusa conhecida como a Dama do Frio.

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O Legado da Estilha de Cristal george_bonfim